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AULA 02 – INTERFACE HOMEM COMPUTADOR

PSICOLOGIA COGNITIVA

INTRODUÇÃO

Imagine a seguinte situação: você precisa comprar um presente. Ao receber essa notícia, algumas questões devem surgir, como: para quem? Qual a idade da pessoa? Do que ela gosta?

Obvio que essa tarefa seria mais fácil se fosse solicitado que você comprasse um presente para sua mãe, pai ou filho. Perceba que, quando conhecemos a pessoa, fica bem mais fácil a tarefa de comprar um presente.

Ao entendermos como nós pensamos, também poderemos construir interfaces que agradem a um número maior de usuários. Com base nisso, vamos começar entendendo o que é a psicologia cognitiva.

PSICOLOGIA COGNITIVA

Antes de começarmos nossos estudos, vamos começar conceituando psicologia cognitiva.

Denomina-se psicologia cognitiva o ramo na psicologia que trata do modo como os indivíduos percebem, aprendem, lembram e representam as informações que a realidade fornece. A psicologia cognitiva abrange como principais objetos de estudo a percepção, o pensamento e a memória, procurando explicar como o ser humano percebe o mundo e como utiliza o conhecimento para desenvolver diversas funções cognitivas, como falar, raciocinar, resolver situações-problema, memorizar, entre outras.

A psicologia cognitiva é totalmente divergente de outras abordagens da psicologia por dois motivos principais: 1. Refuta a introspecção e adota o método científico positivista como método válido de investigação, o que contraria os métodos fenomenológicos, como a psicologia freudiana, por exemplo. 2. Defende a existência de estados mentais internos, tais como o desejo; as crenças (conjunto de suposições desejadas, inconsciente ou conscientemente por indivíduos, ou grupos); as motivações (impulso de materialização do desejo na conduta dos indivíduos de forma consciente ou inconsciente), tais estados mentais vão contra os preceitos da psicologia comportamental (VESCE, 2015, s.p.).

Ao sabermos como funciona nosso corpo e nossa maneira de pensar, poderemos propor soluções mais eficientes aos nossos problemas.

Assim como os conhecimentos sobre a fisiologia da mão e do braço são importantes no projeto de uma ferramenta manual, também os conhecimentos sobre as características humanas no tratamento da informação são importantes no projeto de um software interativo. Considerar o usuário significa conhecer, além das informações provenientes da análise ergonômica do trabalho (idade, sexo, formação específica, conhecimentos, estratégias, etc.), também aquelas ligadas às suas habilidades e capacidades em termos cognitivos. Enquanto se pretende o computador como uma extensão do cérebro humano, é fundamental conhecer como se processam os tratamentos cognitivos na realização de uma tarefa informatizada (CYBIS, 2003, p. 13).

Lembrando que no nosso curso o foco de IHM será em desenvolvimento de sistemas de não abordaremos aspectos físicos da disciplina, aspectos esses bonitos e importantes. Para saber mais sobre IHM físico acesse o site https://www.abergo.org.br/.

Nos últimos anos, vários estudos têm sido realizados em psicologia sobre o tratamento da informação.

Os estudos visando à descrição de leis gerais sobre condições de estímulos e de respostas do comportamento diretamente observáveis das pessoas (behaviorismo) foram sendo complementados, mas não sem controvérsias, por estudos que visam à descrição dos mecanismos internos, não diretamente observáveis (teorias cognitivas), mas que explicam os comportamentos) (CYBIS, 2003, p. 295).

Nesse curso apresentaremos um resumo sobre como pensamos e como nos comunicamos, objetivando auxiliá-lo no desenvolvimento de interfaces com mais qualidade. Entretanto, esses assuntos, devido à sua complexidade, necessitam de um aprofundamento muito maior do que apresentaremos aqui.

OS MODELOS MENTAIS

Cybis (2003, p. 13) afirma que “O sistema cognitivo humano é caracterizado pelo tratamento de informações simbólicas”. Em um primeiro momento, isso pode não ter muito significado para nós.

Isso significa dizer que as pessoas elaboram e trabalham sobre a realidade através de modelos mentais ou representações que montam a partir de uma realidade. Esses modelos, que condicionam totalmente o comportamento do indivíduo, constituem a sua visão da realidade, que é modificada e simplificada pelo que é funcionalmente significativo para ele. O sujeito amplia os elementos pertinentes e elimina os secundários, sendo a apresentação resultante intimamente ligada aos conhecimentos já adquiridos e a compreensão que o indivíduo tem de um problema. Os modelos mentais relativos a um sistema interativo, por exemplo, variam de indivíduo para indivíduo, em função de suas experiências passadas, e evoluem no mesmo indivíduo, em função de sua aprendizagem (CYBIS, 2003, p.13).

Ainda parece confuso? Vamos usar da tática de que uma imagem vale mais que mil palavras, para te ajudar. Veja a figura abaixo! Note que duas pessoas estão conversando. Uma das pessoas é aparentemente mais velha, e a outra é um jovem.

Voltando ao nosso desenho, podemos imaginar que estão conversando sobre água e gelo. E, como podemos observar na figura, cada um cria o seu próprio modelo mental, com base nas suas experiências. Podemos imaginar que eles não vão se entender nessa conversa.

Um alerta muito importante é feito por Wind, Crook e Gunther (2005, p. 36): “uma de nossas ilusões mais persistentes e talvez a mais limitadora é a crença de que o mundo que vemos é o mundo real. Raramente colocamos em dúvida nossos próprios modelos do mundo até que sejamos forçados a fazê-lo”.

Como na imagem apresentada na figura abaixo, muito divulgada e conhecida por muitos, ela também não está muito clara, pois na mesma imagem podemos ver uma bela moça e uma senhora idosa. Em outras palavras, tudo depende de nós, do nosso olhar. Algumas pessoas podem ter dificuldades de encontrar tanto a moça quanto a idosa, isso depende dos modelos mentais que ela tiver construído.

Podemos dizer que estamos em constante evolução, que nossos modelos mentais estão sempre sendo alimentados, seja pelo o que vimos ou ouvimos. Temos que pensar também que são esses modelos mentais que condicionam nossos comportamentos e constituem a nossa visão da realidade, que é modificada e simplificada para o que é funcionalmente significativo para nós. Para Cibys (2003, p. 14), “O sujeito amplia os elementos pertinentes e elimina os secundários, sendo a apresentação resultante intimamente ligada aos conhecimentos já adquiridos e a compreensão que o indivíduo tem de um problema”. Se sentimos essa dificuldade na interação com outro ser humano, imagine ao interagir com uma interface.

Para ilustrar um pouco mais como os modelos mentais influenciam nossas vidas, reza a lenda que, quando os portugueses chegaram ao Brasil, em 1500, os índios demoraram alguns dias para conseguir enxergar as caravelas que estavam ancoradas.

Embora seus olhos vissem a imagem, seu cérebro rejeitava a informação, uma vez que não tinham a comparação com nada que já havia registrado, ou seja, como a realidade extrapolava seus padrões, foi necessário tempo até que a mente aceitasse a novidade. Isso acontece porque desenvolvemos os chamados “modelos mentais” (VIEIRA, 2015, s.p.).

Antes de continuarmos, vamos entender como são criados os modelos mentais. Os modelos mentais afetam cada aspecto de nossa vida pessoal e profissional e da sociedade em que vivemos.

EDUCAÇÃO: nossa educação configura nossos modelos mentais de uma forma muito ampla e define uma base que consolida nossa visão do mundo. Um cientista aprende a aproximar-se do mundo de uma forma diferente de um músico de jazz. Essa educação ampla frequentemente a menos visível das forças que moldam nossa predisposição. Nós nos cercamos de pessoas com experiência semelhante. Uma formação em ciências humanas busca dar às pessoas uma linguagem e uma visão do mundo comuns a partir das quais deve operar, de modo que é muito fácil para essa base educacional mesclar-se ao ambiente como um camaleão a uma rocha. Enquanto que aprofundar o conhecimento em uma área de conhecimento é um tipo de aprendizado, o aprendizado de modelos mentais representa um segundo tipo de aprendizado (veja adiante o destaque: “Um segundo tipo de aprendizado”).

TREINAMENTO: relacionado à educação está o treinamento específico que recebemos para tratar com transições ou para lidar com novas tarefas. Um programador de computadores pode aprender uma linguagem de programação, ou um artista pode aprender a trabalhar com escultura de metais. Esse treinamento é mais específico e mais visível do que a educação, e mais facilmente modificável. Ainda assim, frequentemente caímos numa rotina muito difícil de sair, no nosso treinamento, mesmo que o mundo à nossa volta mude significativamente.

A INFLUÊNCIA DE OUTROS: todos somos influenciados por conselheiros, especialistas, familiares e amigos. Esses indivíduos, sua filosofia de vida e abordagem de problemas afetam profundamente a maneira de abordar nossos próprios desafios. Somos influenciados pelas pessoas de nosso ambiente imediato, primeiramente pelos pais, amigos e professores e mais tarde por chefias e colegas de trabalho, que nos levam para novos rumos ou nos encorajam a realizar mais, desafiando nossa própria visão sobre nós mesmos. Também somos influenciados por tendências mais amplas da sociedade, como aconteceu com muitas pessoas que cresceram na década de 1960. Finalmente, somos influenciados pela cultura de massa em um mundo no qual o uso de um aplicativo ou rede social pode espalhar tendências e modismos pelo mundo em questão de horas.

RECOMPENSAS E INCENTIVOS: nossos modelos e ações mentais são moldados pelas recompensas que recebemos por mantê-los, que podem ser concretas, como um ganho financeiro direto, ou menos tangíveis, como aprovação social.

EXPERIÊNCIA PESSOAL: alguns artistas e cientistas são autodidatas. Eles criam seu próprio estilo por meio da experiência pessoal, o que torna mais fácil pensar fora da corrente principal. A tradição de aprendizado também está baseada em um processo de combinar aprendizados, de experiência e de um conselheiro ou especialista.

Como você percebeu, muitas ou todas as nossas ações são guiadas pelos modelos mentais que construíamos a respeito das coisas, das pessoas, das situações, e com a interface de um sistema é a mesma coisa. Agora que já percebemos como podemos influenciar e sermos influenciados por diversos fatores sem que possamos perceber, vamos voltar às interfaces.

Os modelos mentais relativos a um sistema interativo, por exemplo, também variam de indivíduo para indivíduo, como vimos, em função de suas experiências passadas, e também esses modelos evoluem no mesmo indivíduo, em função de sua aprendizagem. Diante disto, pode-se distinguir numa determinada situação de trabalho informatizada, as consequências clássicas.

      • A grande diferença entre os modelos mentais desenvolvidos por usuários novatos e por experientes.
      • As diferenças de modelos mentais entre indivíduos, segundo as funções por eles exercidas, de gestão ou de operação, por exemplo. Neste caso, são evidentes as diferenças nas representações mentais de quem opera um sistema assídua e frequentemente, de quem o faz de maneira esporádica ou intermitente.
      • Os modelos mentais relativos a uma interface correspondem a um conjunto de conhecimentos semânticos (conceitos) e procedurais (procedimentos) que é particular a cada usuário.
      • Os modelos mentais desenvolvidos por projetistas e por usuários se diferenciam grandemente (CYBIS, 2003, p. 14).

Segundo o Cybis (2003, p. 14), devido a todos esses fatores, “A interface humano-computador dos sistemas deve ser flexível o suficiente, para adequar-se aos diferentes tipos de usuários, ao mesmo tempo em que possa adaptar-se evolução das características de um usuário específico durante seu processo de aprendizagem com o sistema”.

A interface humano-computador, segundo Cybis (2003), tem total responsabilidade no desenvolvimento de modelos mentais, pois ela retribui àquilo que o usuário vê, conhece e opera do sistema. Ela tem como função auxiliar a montagem, na mente do usuário, de uma estrutura de conhecimentos acerca dos comandos e dos procedimentos corretos para sua operação.

O projetista, ainda segundo o autor, tem a responsabilidade de definir interfaces que comuniquem o modelo conceitual do sistema aos usuários, conforme podemos ver na figura abaixo:

MODELOS CONCEITUAIS DE PROJETISTAS X USUÁRIOS

Para Cybis (2003, p. 14), “o projeto de interfaces humano-computador, além da variabilidade, nos indivíduos e no tempo, é importante saber o que favorece ou limita a armazenagem e a recuperação destas representações em estruturas de memória”.

A MEMÓRIA

Os modelos e as representações mentais, segundo Cybis (2003, p. 18), “são armazenados e recuperados através de um conjunto de fenômenos que tem em comum o fato de restituir a informação, com maior ou menor transformação, após certo tempo, quando a fonte desta informação não está mais presente”.

O autor ainda afirma que a capacidade de memorização humana pode encadear os seguintes processos:

      • Reconhecimento: é a capacidade do homem de reencontrar no seu campo perceptivo elementos anteriormente memorizados (reconhecer o nome de uma opção de menu após muito tempo sem vê-la).
      • Reconstrução: é a capacidade do homem de recolocar os elementos memorizados na sua organização anterior (quais eram os parâmetros iniciais da configuração de um parágrafo de texto antes de reconfigurá-lo?).
      • Lembrança: é a capacidade do homem de recuperar, de forma integral, uma situação anteriormente vivenciada, sem a presença de nenhum dos elementos dessa situação (CYBIS, 2003, p. 18).

Os estudos atuais não conseguem definir de maneira precisa os custos fisiológicos que estão associados a estes processos. O armazenamento e a recuperação da informação podem ser explicados a partir de fenômenos em dois níveis de atividades: nível neurofisiológico (memória conexionista) e nível cognitivo (memória cibernética/computacional).

A MEMÓRIA CONEXIONISTA

O modelo biônico/conexionista explica a memória a partir da neurofisiologia do cérebro humano, com neurônios (células nervosas) e sinapses (comunicação entre elas). Este modelo de memória propõe um modo de armazenagem, em que a informação é distribuída sobre um conjunto de ligações sinápticas. O funcionamento de um sistema conexionista é determinado pela rede de ligações entre os neurônios (unidades de tratamento), e pelos pesos das ligações que determinam a ocorrência de sinapses (comunicação entre eles). As redes de neurônios são capazes de modificar sua própria conectividade, através da modificação dos pesos das ligações. Isso ocorre tanto em função de uma situação externa ou de sua atividade interna. A rede assume assim novos estados e passa a fornecer respostas diferenciadas em função das restrições de uma situação específica.

A MEMÓRIA CIBERNÉTICA/COMPUTACIONAL

O modelo cibernético/computacional, também chamado de modelo de Von Neumann, descreve a memória humana em nível cognitivo semelhante à memória de um computador. Este modelo distingue três sistemas de estocagem, que correspondem provavelmente a sistemas neurofisiológicos também distintos: o registro sensorial das informações (RS), a memória de curto termo (MCT) e a memória de longo termo (MLT). Em sua versão original, a informação que é liberada pelo sistema perceptivo é armazenada em um registro sensorial de capacidade limitada. O registro sensorial da informação é conservado apenas por alguns décimos de segundos, sem nenhuma possibilidade de prolongamento. A parte que é selecionada para um tratamento mais elaborado é armazenada em uma estrutura de memória descrita por dois modelos complementares; o da memória de curto termo – MCT – e o da memória de trabalho – MT.

A capacidade da MCT é de 6 a 7 itens, e seu esquecimento ocorre em poucos segundos. Esta declaração define a MCT como um registro de armazenamento, indiferente ao formato da informação e passivo com relação ao nível de evocabilidade exigido. Já o modelo de memória de trabalho – MT – define esta memória intermediária como um centro de tratamentos, composta por dois subsistemas especializados, um nos tratamentos verbais e outro nos tratamentos visuais-espaciais. Um executor central é capaz de manter certas informações em um alto nível de evocabilidade.

Gonçalves (2008) explica que, na memória humana, o cérebro capta e armazena as informações para que possam ser usadas depois em três diferentes níveis de processamento: Registro Sensorial das informações (RS), Memória de Curta Duração (MCD) e Memória de Longa Duração (MLD), seguindo o seguinte fluxo:

Na memória humana, o cérebro capta e armazena as informações para que possam ser usadas posteriormente em três diferentes níveis de processamento: Registro Sensorial das informações (RS), Memória de Curta Duração (MCD) e Memória de Longa Duração (MLD). A informação que é liberada pelo sistema perceptivo é armazenada no Registro Sensorial, onde a informação é conservada por apenas alguns décimos de segundos. A partir daí a Memória de Curta Duração ou Memória de Trabalho guardará a informação por cerca de 5 a 30 segundos. A capacidade da MCD é composta por cerca de 6 a 7 itens não relacionados entre si, e seu esquecimento ocorre em poucos segundos. A partir da MCD, a informação pertinente é armazenada na MLD, que retém a informação por um tempo maior e possui grande capacidade de armazenamento em comparação com a MCD (GONÇALVES, 2008, p. 43).

Podemos melhor observar na figura abaixo uma diferenciação entre os tipos de memória:

O fluxo apresentado na figura abaixo apresenta a relação entre as memórias de longa duração (MLD) e a Memória de Curta duração (MCD). Segundo Iida (2005, p. 262), “a distinção entre MCD e MLD é difícil, pois parece que elas operam conjuntamente e, em muitos casos, na utilização da MLD descobriu-se que tinha havido interferência da MCD e vice-versa. A MCD também parece exercer papel importante na organização da MLD”.

A partir da memória de trabalho, a informação pertinente é armazenada em registros permanentes, os esquemas, que representam a base de conhecimentos do indivíduo. A permanência da informação na memória de longo termo – MLT – não está sujeita a limitações de ordem temporal, o que não implica uma acessibilidade permanente. O esquecimento, nesta memória, é descrito como incapacidade de recuperação e é causado pelo aumento em número e semelhança dos conhecimentos declarativos (conceitos), e pela incompatibilidade entre os contextos de codificação e de recuperação dos conhecimentos procedurais (procedimentos). Para favorecer estes processos, os projetistas de IHC devem investir na organização, categorização, diferenciação e discriminação das informações apresentadas sobre estas interfaces. Na correlação com os modelos mentais, existem dois tipos de esquemas; os episódicos e os semânticos. A memória episódica guarda o conhecimento de ordem procedural, essencialmente dinâmico e automatizável, como sequência de diálogo, ou caminhos em uma interface. O efeito do contexto (intrínseco, interativo, psicológico) é o fator determinante da recuperação de episódios. Um bom desempenho depende da compatibilidade entre as situações no momento do registro e no momento da recuperação da informação. A memória semântica armazena conhecimentos declarativos organizados, segundo redes de proposições conceituais. O acesso à informação independe do contexto, e acontece pela ativação de um de seus nós, e pela propagação desta ativação aos nós vizinhos. Aqui, a organização, a classificação e a diferenciação das informações apresentadas nas IHC garantem um bom desempenho humano (CYBIS, 2003, p.18-19).

A PERCEPÇÃO

A percepção humana, segundo Cybis (2003), é delimitada por um conjunto de estruturas e tratamentos pelos quais as pessoas organizam e dão significados às sensações produzidas por seus órgãos perceptivos a partir dos eventos que os estimulam. Gagné (1962 apud CYBIS, 2003, p. 15) distingue na atividade de percepção três níveis distintos de processos:

        • processos de detecção ou neurofisiológico: constatar a existência de um sinal;
        • processos de discriminação (de identificação) ou perceptivo: classificar as informações em categorias. Esta função só é possível se anteriormente houve a detecção e se já existirem categorias memorizadas;
        • processos de interpretação (tratamento das informações) ou cognitivo: dar um significado às informações. Esta função só é possível se anteriormente houve a detecção, a discriminação e se já existirem conhecimentos memorizados.

Inicialmente, pode-se distinguir que sensação e percepção, nas atuais obras de psicologia, são tratadas como dois níveis de um mesmo processo cognitivo, ainda se considera a sensação como a resposta específica a um estímulo sensorial, enquanto percepção é o conjunto dos mecanismos de codificação e de coordenação, das diferentes sensações elementares, visando lhes dar um significado. Vale ressaltar que o estudo da percepção situa-se em um nível menos sensorial e mais cognitivo do que o estudo da sensação. De fato, interessa menos as condições do estímulo que permitem a percepção, e mais o significado correspondente a um certo estímulo, isto é, o conhecimento do objeto, tal como ele é percebido.

Estes processos se verificam, com maior ou menor variação, no conjunto de sistemas autônomos que caracterizam a percepção, e que são apresentados nos tópicos sobre:

  • percepção visual;
  • percepção auditiva;
  • percepção da fala;
  • atenção e vigilância.

A PERCEPÇÃO VISUAL

O sistema visual humano é organizado segundo os níveis neurossensorial, perceptivo e cognitivo. O nível neurossensorial envolve a transformação dos traços elementares da estimulação visual em primitivas visuais que, em nível perceptivo, são estruturadas seguindo diversos mecanismos conhecidos como Leis da Gestalt. Estas leis descrevem as condições de aparecimento de grupamentos e incluem os princípios básicos da proximidade, similaridade, continuidade e conectividade. A percepção de contornos, a segregação figura-fundo e a ocorrência de ilusões ótico-geométricas são fenômenos da estruturação pré-semântica. Mesmo que possam corresponder à aparência de um objeto, elas ainda não permitem sua identificação. Para tanto, é necessário montar uma representação espacial (3D) e recuperar os conhecimentos prévios sobre a função do objeto. Ao completar os processos cognitivos, o indivíduo tem acesso à representação fonológica e lexical sobre sua denominação, isto é, recupera o nome do objeto (CYBIS, 2003, p. 16).

Para ilustrar a percepção visual, as figuras abaixo apresentam diversas ilusões de ótica.

ILUSÃO DE PERCEPÇÃO VISUAL
ILUSÃO DE PERCEPÇÃO VISUAL
TESTE DE PERCEPÇÃO VISUAL
TESTE DE PERCEPÇÃO VISUAL

De acordo com a psicologia da Gestalt, o todo é diferente da soma de suas partes. Com base nesta crença, psicólogos da Gestalt desenvolveram um conjunto de princípios para explicar a organização perceptiva, ou a forma como a mente agrupa pequenos objetos para formar outros maiores. Estes princípios são muitas vezes referidos como a “lei da organização perceptiva”. No entanto, é importante notar que, enquanto os psicólogos da Gestalt chamam esses fenômenos de “lei”, um termo mais preciso seria “princípios” Estes princípios são muito parecidos com heurísticas, que são atalhos mentais para resolver problemas.

A PERCEPÇÃO AUDITIVA

O sistema auditivo humano recebe as informações de fontes sonoras simultâneas de maneira seletiva. As representações acusticamente coerentes, denominados objetos ou “imagens” auditivas, são organizadas em processos paralelos e sequenciais. Nos processos paralelos, este sistema organiza os eventos sonoros segundo sua amplitude, frequência, forma espectral e posição. Os processos sequenciais lidam com sucessões de eventos acústicos percebidos na forma de um fluxo. Os componentes de um fluxo sonoro apresentam continuidade, como em uma melodia, e são determinados por relações de frequência, cadência, intensidade, conteúdos espectrais etc. (CYBIS, 2003, p. 16).

A PERCEPÇÃO DA FALA

A percepção da linguagem falada está organizada na forma de uma série de sucessivos processos de codificação. No nível neurossensorial ocorre a codificação neuronal dos estímulos fonéticos. A informação sobre a estrutura espectral destes índices é extraída e estocada numa memória sensorial de curtíssimo termo. Isto permite a análise dos índices acústicos pertinentes que são confrontados com os traços fonéticos característicos de uma linguagem específica. Ocorre então a filtragem das variações fonéticas que não são características, de maneira a isolar as unidades silábicas. No nível lexical se dão os tratamentos de acesso ao léxico e de identificação das palavras. No nível sintático ocorre a integração das informações lexicais e sintáticas com a interpretação da mensagem recebida, no nível semântico (CYBIS, 2003, p. 16).

O RACIOCÍNIO E O APRENDIZADO

Se alguém perguntasse para definir raciocínio, com certeza não seria uma tarefa simples.

O raciocínio é definido como uma inferência ou atividade mental de produção de novas informações, a partir das existentes. Essas atividades possuem duas finalidades não exclusivas; a de buscar uma coerência entre as diferentes informações, e a de decidir sobre escolhas de ações. A chegada de novos dados suscita conceitos e hipóteses que estimulam o tratamento (CYBIS, (2003, p. 20).

E como se dá o conhecimento, como acontece, como é produzido, como explicaria?

        • A produção de conhecimentos pode ser feita a partir de regras gerais, cuja validade é definida pela lógica formal ou a partir de regras heurísticas, que podem produzir resultados nem sempre eficazes.
        • A inferência é dedutiva, quando partindo de uma ou mais premissas verdadeiras, chega-se a uma conclusão seguramente correta. A inferência dedutiva, como o tratamento do tipo algorítmico, é dirigido por programas e corresponde a procedimentos pré-determinados, mais ou menos automatizados.
        • A inferência é indutiva quando se parte de premissas verdadeiras, chegando-se a uma conclusão mais geral, não necessariamente verdadeira (generalização). A analogia é uma forma de raciocínio indutivo que se baseia em conhecimentos estocados na memória para a compreensão de uma situação desconhecida. Trata-se de um tipo de raciocínio que visa a estabelecer uma relação de similaridade entre dois objetos ou situações diferentes (CYBIS, s. d.).

De uma maneira geral, pode-se definir aprendizagem como um processo de construção e de assimilação de uma nova resposta com relação a uma situação-problema (BERBAUM, 1984).

E no desenvolvimento das interfaces, o projetista deve estar atento, segundo Cybis (2003, p.19), pois “devem considerar que os humanos têm dificuldades para o raciocínio algorítmico, dedutivo, tendo melhores possibilidades em analogias e deduções”.

Segundo uma abordagem cognitivista, a aprendizagem pode ser entendida como o processo de modificação das representações acumuladas nos esquemas declarativos e procedurais, fruto das inferências internas ou de atividade perceptiva. No nível de conhecimentos, a aprendizagem define a competência (saber), e, no nível de comportamento, ela define o desempenho (saber-fazer). O progresso na aprendizagem não acontece exclusivamente pela acumulação de conhecimentos (mudanças quantitativas), mas também pela eliminação de hipóteses falsas, de restrições inoportunas e pela substituição de procedimentos (mudanças qualitativas). De maneira geral, a aprendizagem pode se dar pela ação ou por um tutorial. A descoberta e a exploração caracterizam a aprendizagem pela ação. Nestas situações, os fatores importantes são o feedback, a identificação dos pontos críticos da situação e dos índices que permitem evocar situações anteriores. A aprendizagem por tutorial refere-se às diversas formas de transmissão do saber de um instrutor. Neste caso, é importante o papel que assumem os conhecimentos anteriores, como um quadro assimilador do novo conhecimento (CYBIS, 2003, p. 19).

O CURSO DAS AÇÕES

O curso das ações dos indivíduos, segundo Cybis (2003, p. 21), “para a realização de uma tarefa, encadeia processos ou atividades cognitivas em três etapas principais: análise da situação, planificação e controle das ações”. Detalharemos cada uma das ações.

A ANÁLISE DE UMA SITUAÇÃO

A fase de análise inicia-se pela percepção orientada, sendo composta das seguintes etapas:

      • ativação: um sinal chama a atenção do indivíduo, levando-o a orientar seus sentidos na direção da fonte desta informação, o que provoca um estado de alerta;
      • observação: a partir do estado de alerta, o indivíduo coleta dados sobre o ambiente, sistema de produção e meios de trabalho;
      • categorização: o indivíduo dispõe agora de um conjunto de dados que pode ser decodificado e coordenado no sentido de elaborar uma representação do estado do sistema;
      • interpretação: nesta etapa, o indivíduo determina as causas e as consequências do estado do sistema sobre a evolução da situação de trabalho (CYBIS, 2003, p. 21).

A PLANIFICAÇÃO DAS AÇÕES

Tendo sido montada uma representação da situação, as próximas etapas de tratamentos cognitivos se referem à avaliação de quais são as possibilidades de ações, selecionar uma e planejar a sua realização:

      • avaliação das possibilidades: a partir das características técnicas, organizacionais e humanas, o indivíduo avalia as diferentes soluções possíveis e escolhe a ‘‘estratégia ótima’’, aquela que melhor lhe permite satisfazer a um conjunto de critérios contraditórios, como custo para o sistema de produção e custo para ele próprio;
      • definição da tarefa: o indivíduo, segundo esta estratégia, fixa os objetivos e determina os meios necessários para atingi-los;
      • definição de procedimentos: consiste numa sequência ordenada de operações a serem efetuadas.

A definição ou seleção de uma tarefa a ser realizada garante os recursos cognitivos necessários para a sua planificação e para o seu controle. O processo de seleção é guiado por mecanismos motivacionais, envolvendo o produto de dois fatores: a importância da tarefa do ponto de vista das motivações do indivíduo e a esperança de sucesso nesta tarefa. Este último parâmetro depende não somente da frequência de sucessos anteriores, mas também da crença que tem o indivíduo de que o sucesso está sob o seu controle.

Em tarefas simplificadas, a escolha se baseia na facilidade de realização. O modelo de regulação temporal considera que os fatores importância e esperança de sucesso podem variar durante a execução da tarefa. Segundo este modelo, a força de uma intenção, parâmetro que evolui no tempo depende, além da importância motivacional e da competência da tarefa, também de sua urgência. Esta é definida como proximidade temporal da data limite permitida para a sua realização.

A tarefa escolhida é aquela para a qual a força de intenção é a mais forte. A planificação das atividades se refere à fixação de objetivos e elaboração de planos e se baseia em uma representação hierárquica de espaços abstratos. A estrutura geral do problema é representada, mas os detalhes menores são abstraídos.

Resolve-se o problema por refinamentos sucessivos, introduzindo-se os detalhes dos espaços abstratos dos níveis inferiores. A planificação não passa de uma hipótese de trabalho, pois ela necessita de avaliações e de ajustes constantes. FONTE: Cybis (s.d.)

A REALIZAÇÃO DAS AÇÕES

Uma vez planificadas, as ações são executadas, controladas e avaliadas em termos dos resultados obtidos.

      • Execução dos procedimentos: a fase de planificação termina numa execução dos procedimentos, isto é, na realização da tarefa.
      • Controle da execução: um tratamento que pode ser automático ou consciente.
      • Avaliação dos resultados das ações: compreender a situação – modificação da representação que se tem do problema para poder melhorar o processo de solução.

A partir das entradas e saídas possíveis na realização e controle das ações Rasmussen (1981) propõe uma formalização de três diferentes tipos de comportamentos humanos; os baseados em habilidades, os baseados em regras, os baseados em conhecimentos.

Os comportamentos baseados em habilidades (skills) são essencialmente sensório-motores, acionados automaticamente por situações rotineiras e que se desenvolvem segundo um modelo interno, não consciente, adquirido anteriormente. As habilidades são pouco sensíveis às condicionantes ambientais e organizacionais, permitindo reações muito rápidas e podendo se desenvolver em paralelo com outras atividades. Um exemplo de um encadeamento sensório-motor complexo é fornecido pelo andar. Dentro de certos limites, as variações do estado do solo, ou as mudanças de direção do caminhar, são tratadas sem intervenção da consciência para assegurar a continuidade da progressão do andar e do equilíbrio.

Os comportamentos baseados em regras (rules) são sequências de ações controladas por regras memorizadas por aprendizagem. Ao contrário das habilidades, estes comportamentos exigem o disparo de regras e uma coordenação entre elas, tendo em vista a variabilidade das situações encontradas. As atividades conscientes de um usuário experiente na realização de tarefas rotineiras com um software editor de textos pertencem a este tipo de tratamento.

Os comportamentos baseados em conhecimentos (knowledge) aparecem em situações novas, de resolução de problemas, para os quais não existem regras pré-construídas. De fato, este tipo de comportamento está mais ligado ao indivíduo do que a própria tarefa. Uma tarefa pode ser familiar para um indivíduo, mas totalmente nova para outro.

Neste ponto estão presentes as heurísticas, ou tratamentos dirigidos por conceitos, que se referem ao conhecimento geral dos eventos e das expectativas específicas por ele geradas (responsável, em particular, pelas atividades pré-perceptivas). Por exemplo, entre as heurísticas aplicáveis nas situações de navegação em um site internet em busca de informação, podem ser citadas as:

      • heurística de similaridade e de exemplares: o indivíduo procura agir sobre algo que se assemelhe ou que pertença à mesma classe do objeto pretendido;
      • heurística de familiaridade: o indivíduo procura uma solução através de objetos e funcionalidades que ele conheça;
      • heurística de importância: o indivíduo procura uma solução a partir de objetos e funcionalidades que estejam em evidência;
      • heurística de contexto: o indivíduo procura encontrar um contexto que se assemelhe ao contexto no qual o objeto pesquisado tenha sido encontrado.

O controle e a realização de ações podem ser analisados segundo o quadro de uma arquitetura cognitiva com processadores paralelos (automáticos ou inconscientes) e sequenciais (simbólicos ou conscientes). A automação se verifica quando o controle da execução é realizado por processadores capazes de funcionar em paralelo com o processador simbólico.

A experiência profissional conduz ao desenvolvimento de automatismos, o que alivia a carga de trabalho do processador simbólico, permitindo a execução de ações em paralelo, assegurando uma redundância de controle. Esta última característica permite que as falhas dos automatismos possam ser detectadas e corrigidas.

A avaliação dos resultados da ação é um componente fundamental na modificação da representação que se tem do problema. Ela necessita de uma atitude geral de reflexão sobre a ação, que leva, mais do que ao sucesso, a compreender uma situação, e à melhoria do processo de solução. FONTE: Cybis (s.d.).

Fim da aula

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